Uma nova São Paulo

A maior cidade do Brasil é uma terra que leva vários nomes. “Terra dos Encantos” é um deles

 

Ao completar 453 anos, São Paulo ainda é a “Terra dos Encantos” para alguns. Pode parecer incrível, mas é assim que o ex-taxista Francisco Figueiras Chaves, morador do bairro do Jaraguá, vê a metrópole onde vive há 57 anos. “Adoro São Paulo. Vim jovem para cá e essa cidade é o meu coração. Conheço o Ipiranga, Brás, Belém, Bexiga, Tatuapé, Mooca, Vila Prudente, Praça da Sé, Parque Dom Pedro. Dá até para se fazer um tour pelos bairros mais antigos e conhecer lugares interessantes”.

É inevitável a comparação com a São Paulo de 50 anos atrás e a que vivemos hoje: “A cidade melhorou em muitos aspectos. As ruas, por exemplo, hoje têm um ótimo calçamento e há condução para qualquer bairro. Porém, o trânsito piorou bastante, pois triplicaram o número de carros nas ruas. O engarrafamento é horrível”, disse Chaves e endossou a crítica pública sobre o grande fluxo de veículos nas vias expressas.

Mas, nem só as ruas e avenidas que fascinaram Chaves. Ele revelou ser um amante da noite paulista. Guarda ótimas recordações de casas e lugares. Por conta de seus hábitos boêmios, chegou a casar-se duas vezes. E só foi pai aos 53 anos. Mas, não se arrepende: “Minha filha veio na hora certa”.

Mas, a noite ainda lhe faz suspirar nostalgicamente. “Tenho saudades dos grandes bailes por causa das namoradas. Nessa época, dançávamos bolero, valsa e samba. Sempre com muito respeito, é claro” revela sorrindo. Os bailes que freqüentava na sua mocidade eram os do Anhembi, do Clube Atlético Ypiranga, do Vila São José, sempre “os mais conhecidos”, como fez questão de frisar.

Não apenas nos bailes, as canções também o marcavam. É um hábito de Chaves sempre associar trechos de músicas a situações do dia-a-dia. Ele gosta muito de músicas românticas e vive cantarolando por aí: “No interior, havia as tradicionais serenatas À noite. Quando era criança, ao ouvi-las perto de casa, pedia À minha mãe para me levar para ver e gritava – “Olha o pum! Eu quero ver!”, revelou sorrindo.

Chaves lamentou que, hoje a vida da juventude hoje em dia é vazia, sem conteúdo. “Quando eu era jovem, era mais legal marcar um encontro. Havia um ar de mistério, uma atmosfera romântica. Hoje São Paulo perdeu o romantismo, mas não o charme”.

Para chegar a tal contatação, Chaves baseia-se na vida de sua filha Silvana, 21 anos, estudante. “Ela mal consegue voltar À noite da aula. Quando ela sai, fico acordado até ouvir a voz dela ao chegar em casa”, afirmou, com preocupação.

Para Chaves, o charme da cidade está nos diversos locais históricos: O centro antigo de São Paulo, Teatro Municipal, Mercado Municipal, Museu do Ipiranga, Avenida Paulista são locais que especiais. Antes, os táxis não possuíam pontos fixos. Como taxista, ele rodava a cidade em busca de passageiros e esses locais eram sempre movimentados. Assim, ele ficava por dentro do burburinho da metrópole e ainda conseguia o sustento diário. União diversão e trabalho.

A figura do taxista abre espaço para que seja criada uma imagem lúdica, Ao transportar passageiros, esse trabalhador paulista carrega várias histórias de vida. “Sempre tinham algo para contar, tristes ou alegres, mas sempre diferentes”. Até o nascimento da filha entra na sua coletânea de histórias, pois ela nasceu a caminho do hospital. ” Minha filha nasceu em uma noite fria de agosto. Eu estava no bar em frente de casa e minha esposa começou a passar mal. Ela saiu para me chamar e em minutos já estávamos dentro do carro. Ao chegar na Av. Itaquera, minha criança não quis esperar, colocou a cabecinha para fora e escorregou. Entrei no hospital com a criança nos braços. Foi muito emocionante.”

Outro lugar-comum eram os campos de futebol paulistas. Torcedor fanático do São Paulo, afirmou “não perder um só jogo, nem o Campeonato dos Juniores”. Como a maioria dos homens, ele sempre amou “jogar uma pelada”. Quando era jovem jogava aos finais de semana. Hoje, sente muita vontade de voltar a assistir os clássicos do esporte, como São Paulo e Corinthians no estádio do Morumbi, mas por conta da violência e da idade “prefere ver pela tv mesmo”, diz com tristeza.

Atualmente Chaves é aposentado e sobrevive com uma renda de R$ 600,00. Afirma que “dá uma espremida, compra o necessário e sempre que é possível, dá uma ajudinha para a filha e os sobrinhos”. Hoje em dia ele não trabalha mais e diz que “já trabalhou bastante, agora é hora de descansar”. Essa postura de Francisco vai contra o que o Conselho de Davos, na Suíça, têm colocado como uma alternativa de reforma no sistema previdenciário mundial. A proposta do Conselho visa aumentar o tempo de contribuição dos trabalhadores. A previdência brasileira, assim como a mundial, têm tido grandes rombos em seu orçamento com o aumento da longevidade da população. Conforme dados do IBGE os idosos representam hoje um contingente de aproximadamente 15 milhões de pessoas com 60 anos ou mais de idade.

Chaves diz ser indiferente com a política nacional. Apesar de estar em São Paulo na década de 60 quando os movimentos estudantis e políticos estavam á tona, Francisco diz nunca ter se envolvido com essas questões. Ele sempre preferiu manter uma distância segura “para não se envolver em confusões” e viver sua vida tranquilamente.

O ex-taxista, porém, não deixa de falar que o voto é uma conquista importante e que não deve de forma alguma ser considerado como algo inútil. “Nos EUA, o voto não é obrigatório, vota quem quer. Mas no Brasil é o nosso único meio de expressar a forma como queremos ser governados”. Por já ter 74 anos ele não tem mais a obrigação de votar, porém, incentiva os mais novos para que sejam criteriosos ao escolher seus governantes. E diz também “sempre ter votado e cumprido o seu papel como cidadão”. Ressalta que “tudo o que acontece hoje, não é nem um pouco diferente do que o que acontecia antigamente, afinal, política é política”.

Mesmo em meio aos desencontros políticos, á latente injustiça social que é observada nos quatro cantos da cidade Francisco diz que “no que depender de mim, não saio mais de São Paulo de jeito nenhum, porque ela é minha vida”. Essa é uma relação de amor que nem mesmo o tempo conseguiu esfriar.

*Esse texto foi escrito por mim quando estava cursando o segundo ano de Jornalismo, no primeiro semestre de 2007, para uma matéria experimental. É um perfil do meu pai, o “seu Chico”, que hoje não está mais entre nós. Sonhei tanto com ele esta semana – ele faria 78 anos dia 04/01 – que me deu uma saudade imensa!! A publicação desse texto é minha forma de homenageá-lo nesta tarde de sexta.

Ainda bem que antes de ele partir eu disse bem baixinho, ao lado da cama de hospital, “pai, eu gosto muito de você. Tudo vai ficar bem, acredite!”. E ele me lançou aquele derradeiro olhar, triste, de despedida. Olhar esse que eu nunca mais vou esquecer. Eu assenti e entendi. E devolvi o olhar para ele com todo o amor que eu tinha no coração.

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2 respostas para Uma nova São Paulo

  1. Bárbara disse:

    Linda homenagem! =)
    Ele, com certeza, deve ter ficado muito feliz quando você o entrevistou no segundo ano da faculdade. Esses gestos de carinho que realmente mostram o que é amor.

  2. Quero crer que sim, Bá! Obrigada 🙂

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