Livros:”Clarice,”: desvendando a esfinge

Muito se fala a respeito de Clarice Lispector. Ela é a louca, a confusa, a melhor escritora, a mais imcompreendida e tida até como “hermética” por alguns. Mas ao mergulhar na leitura da obra de Benjamin Moser, um historiador americano e um dos maiores nomes em matéria de pesquisa e conhecimento a respeito de Clarice, me senti aterrorizada.

Como leitora de alguns livros da autora, eu já estava meio familiarizada com a linguagem de certa forma nonsense e fantástica adotada por ela. Mas ao ler esse livro é possível entender ou pelo menos, ter uma vaga noção porque Clarice era Clarice.

Na visão de Benjamim Moser  a faceta mais forte na personalidade dela era a busca por DEUS. “O DEUS” que a havia abandonado desde sempre. Desde antes de ela nascer, quando seus pais, que tinham uma vida próspera como judeus ucranianos, fugiam do horror da Primeira Guerra de cidade em cidade, em busca de refúgio.

Para Clarice, DEUS era aquele que tinha abandonado a mãe dela, que na tentativa de proteger a família dos progons (soldados que saqueavam os vilarejos) foi estuprada e contraiu Sífilis. Morreu paralisada e deixando a vida e a beleza exuberante que tinha se esvaírem, sem força para segurá-las.

Essa crueldade, além desse resultado trágico, resultou na perda da infância para a irmã mais velha de Clarice, Elisa. Deixou um pai frustrado, muito inteligente e hábil com números, mas com a sina de ser judeu que por isso, teve o futuro acadêmico interrompido… E uma irmã, Tânia, linda e perspicaz, tomou o lugar de mãe da família.

Papéis invertidos, garotas sofredoras… uma menina-Clarice desamparada.
Ela nasceu Chaya. Seus pais a conceberam com acreditando na crendice popular ucraniana que uma vida gera vida, gerava milagre… Chaya. Mas, a corajosa concepção não salvou a mãe, Mania… Os remédios caros, os bens saqueados. Sem pátria, sem terra, sem nada.

Enfim, uma mulher que era diferente, nasceu diferente e nessa busca por se encontrar, entender “o Deus” e justificar o porque de tantas dificuldades, tantas crises em uma só pessoa. Alguém que vivia intensamente, sentia intensamente e deixava que essas explosões de sensações, que a atingiam, vazassem para o papel.

Ao terminar a leitura desse livro que recontou a história de Clarice, tive a impressão de ter descoberto o mundo. Não o mundo convencional, não o que se vive. Mas o mundo visto pela óptica dela. Um mundo louco, que ela se atrevia a defender a sua própria verdade. Mesmo que essa verdade fosse insana aos olhos de todos.

Não quero aqui escrever uma simples resenha literária da biografia dela escrita pelo talentoso Benjamin Moser. Se eu for escrever todos os pormenores desse livro, ficaria por páginas e páginas e como nesse texto, faltariam diversos detalhes. Estragaria a surpresa. Não te permitira conhecer Clarice. Te deixaria com uma opinião viciada e tendenciosa. Eu faria com que você não entendesse o mistério ao folhear as páginas.

Por isso, só posso adiantar uma coisa: parte da composição de Clarice era feita do medo de amar, das frustrações que o amor lhe trouxe e do fato de ela não saber receber o amor que lhe era dado.

Talvez seja por isso que tantos se identificam tanto com ela. Acho que o problema das pessoas é não saber lidar com o amor.

“Clarice,”
Benjamin Moser – Tradução de José Geraldo Couto
Editora Cosac Naif
R$ 82

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