Caso Kliemann – A História de Uma Grande Tragédia

Crimes mal-resolvidos: uma herança maldita da polícia brasileira.

E tendo essa premissa, junte aí nessa panela, uma esposa bela e um jovem político de oposição. Os dois são filhos de famílias tradicionais de Santa Cruz do Sul, cidade de Porto Alegre. O resultado, não poderia ser outro, tendo em conta os métodos investigativos usados na época, a dedução “À la Sherlock Holmes”, recurso esse usado por muitos policiais e jornalistas, infelizmente até hoje.

Esse, como muitos na história nacional, é mais um crime em que muitas especulações foram levantadas, dando espaço ao mais imaginativo tipo de jornalismo e poucas soluções efetivamente práticas foram efetivamente encontradas.

Ao escrever a obra “Caso Kliemann – A História de Uma Tragédia”, o jornalista Celito De Grandi reviveu a sua juventude como repórter da movimentada Porto Alegre dos anos 1960 e deu um outro olhar à história, até então totalmente desencontrada, de uma família que foi brutalmente desestruturada por intrigas. Dos outros.

Margit foi encontrada morta em uma noite de inverno de 1962, aos pés da escada da mansão que a família morava, localizada em Moinhos de Vento, bairro tradicional de Porto Alegre. E é claro, quem seria o suspeito, caro leitor de romances policiais? Nada mais, nada menos que o marido apaixonado e político de esquerda, Euclides Kliemann.

Após essa noite, é nítido ver nas reproduções – no livro – das capas do jornal “Última Hora” (clássico do Jornalismo e propriedade de Samuel Wainer) e de outros jornais locais que Porto Alegre e todo o Estado não foram mais os mesmos. A imprensa na maioria das vezes tendenciosa e imprudente, passou a divulgar fatos que indicavam Euclides como o único suspeito.

 
A polícia, em meio a questões políticas, ia a favor daquilo que a imprensa divulgava. Todos na época tornaram-se detetives e teciam comentários sem a mínima investigação plausível. E sem a mínima vontade de sair da zona de conforto e pesquisar o que de fato aconteceu.

A linha de investigação da polícia gaúcha na época era, errônea e infundadamente, que Euclides Kliemann era o então assassino de sua esposa, Margit. Por conta da negligência policial em investigar corretamente os fatos e também da bagunça da imprensa  local em dar o “furo de reportagem e a melhor foto”, diversas gafes imperdoáveis foram cometidas.

E foi dentro desta  tendência que a polícia, assim como a imprensa, arquitetaram os fatos, criaram e até entrevistaram personagens fictícios, conduzindo uma investigação que levava a crer, que Euclides, era apontado como o único criminoso.

No desenrolar do livro, Celito nos mostra que as investigações seguiam a linha do momento político que o Brasil se encontrava: grandes disputas de poder e dois partidos muito importantes se digladiando.

Uma das primeiras fotos do livro mostra o casamento de Euclides e Magrit, que por sinal era alvo de inveja de toda a “high society” de Porto Alegre. Os dois formavam um casal apaixonado. E desse amor nasceram três meninas, que ficaram órfãs e com o futuro prejudicado.

Celito, seja por ter coberto o caso e por ser um exímio pesquisador, aponta com maestria os fatos que os responsáveis pelo inquérito policial ignoraram, os fatos que a imprensa ávida por provas alterou e o retrato social de uma época em que as aparências falavam mais do que a realidade. Constatação essa que até hoje é real. A verdade por ser simples e de fácil compreensão, nem sempre é aceita com tranquilidade. O obscuro e o especulativo sempre são melhores.

O mais interessante é que em “Caso Kliemann”, apesar de todas as evidências apontadas, não há uma conclusão de quem é o culpado. Aliás, a idéia do livro não é solucionar o crime. Em cada fato narrado, Celito De Grandi abre janelas para que o leitor tire suas conclusões.

Euclides Kliemann foi assassinado um ano depois da morte de usa esposa, pelo então vereador do partido oposicionista, Floriano Peixoto Karan, conhecido como Marechal. Esse último, e não menos trágico crime, aconteceu durante uma coletiva na radio de Santa Cruz. Lá, o Marechal empunhou o revólver e atirou à queima-roupa em Euclides. O crime foi gravado (sendo, assim como o assassinato do presidente americano John Kennedy, um marco histórico da cobertura de assassinatos via rádio) e serviu como um dos indícios para incriminar o Marechal em seu julgamento, que ocorreu em dezembro de 1965.

Uma semana após a sua morte, em 1963, Euclides foi inocentado da acusação de assassinar sua esposa Magrit pelo então promotor Pedro Simon.
O livro de Celito De Grandi é uma obra que pode ser comparada tranquilamente com “A Sangue Frio”, de Trumman Capote. A riqueza de detalhes presente nessa obra é realmente impressionante. E por isso, na minha opinão, ele é um forte candidato a ser uma obra-prima não apenas da categoria Livrorreportagem, mas também da rica Literatura Brasileira.

 

 

 

 

  Literalis Editora 
  Em média, R$ 39

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